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  • 1 Faculdade Dom Pedro II - São Carlos-SP (1928-2009)
    Acervo Valentim Gueller Neto
  • 2 Bonde da Carne São Carlos–SP (1912-1962)
    Acervo Raymond DeGroot
  • 3 Estação Ferroviária de São Carlos-SP (1925)
    Acervo Valentim Gueller Neto

Estação 21 - O Presépio do Sr. Antonio Cruz

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O Sr Antonio Joaquim Cruz me contou que começou a construir presépios em 1937, quando tinha 15 anos, e não parou mais, monta presépios há 73 anos!

Nasceu em 28 de outubro de 1922, na fazenda Sampaio Vidal - Guarapiranga, Distrito de Ribeirão Bonito - SP. Com oito anos, acompanhado do pai, viu o primeiro presépio na Catedral de São Carlos. Também na mesma cidade, no final do ano de 1936, numa residência na rua Conde do Pinhal, entre as ruas São Joaquim e Dom Pedro, viu o segundo, e este mecanizado. Nascia a paixão pelos presépios!
No ano seguinte, mudou-se para São Carlos, e junto com a família foi morar na chácara da família Deriggi, atrás da Escola Profissional, (nos anos 60, Escola Industrial Paulino Botelho, e hoje Cetro Paula Souza).

Com 15 anos, quis montar seu primeiro presépio mecanizado; como não tinha ferramental adequado para esculpir as imagens e figuras, tornear as polias e eixos, pediu ajuda ao Prof. Américo Piccolo do Curso de Marcenaria daquela Escola. O diretor autorizou e estimulou a realização do desejo daquele garoto. Nascia ali a tradição dos presépios do Sr. Antonio Cruz.
Entre os anos de 1941 e 1943, cursou naquela Escola o curso de marceneiro, e depois mudou-se para São Paulo para trabalhar onde ficou por 36 anos, mas sempre montando seu presépio. Voltou para São Carlos e agora faz parte da História Natalina da cidade há 29 anos.

A obra de arte é construída em três planos; no intermediário estão a manjedoura, uma ferrovia e a serraria, no superior, algumas casinhas, a igreja, o moinho de vento e uma ferrovia, e no inferior, a roda d água, o monjolo e a cascata.
Como Seo Antonio também gosta muito de trens e ferrovias, ele incorporou no presépio os trenzinhos Frateschi .

Agora os detalhes:

Lado direito do plano intermediário, a manjedoura;
Lado esquerdo do plano intermediário, a serraria;

Lado direito do plano superior;

Lado esquerdo do plano superior;

Plano inferior, a roda d água, o monjolo e a cascata.

Para garantir que tudo se movimente, sob o presépio existe uma
engenhosa combinação de polias, eixos, correias e motor.












Agora, assista os vídeos:







E quando as crianças se aproximam para apreciar...


acontece isso:


É o sorriso mais lindo do mundo, o sorriso de uma criança feliz! Feliz pelas luzes, músicas, movimentos dos trenzinhos, das imagens, dos animais, das carrocinhas, e pelo conjunto , homenageando o nascimento do Menino Jesus.
Os adultos levam as crianças para ver o presépio, mas elas se transportam para a infância e os sorrisos logo aparecem.



E quem promove toda essa felicidade, é o Seo Antonio Cruz,
que com sua simplicidade, simpatia e habilidade, transforma pedaços
de madeira em Menino Jesus, São José, Nossa Senhora, Reis Magos... O presépio já foi montado em vários locais de São Carlos - SP, e também em outras localidades: Araraquara, Trabiju, Boa Esperança do Sul... Neste final de ano, está instalado num espaço do Mercado Municipal . No período noturno é mais lindo, as luzes causam efeitos especiais! Se você é de São Carlos, ou está de passagem, não deixe de ver.
Você já ouviu falar no Sr. Antonio Cruz sim, ele também está na Estação 15

Créditos:
Fotos:
Escola Profissional - 1930 - Acervo Valentim Gueller Neto
Vistas do presépio: José Alfeo Röhm
Criança sorrindo: É Eduardo Cruz com 3 anos, (mas não é parente do Seo Antonio).
Agradecimentos:
Adriana Aparecida Aguiar, pela cessão da imagem do fillho Eduardo Cruz.
Participaram:
Daniel e Maria Nazareth Gobato Röhm


Obrigado por sua agradável companhia em 2010, certamente nos encontraremos na Estação 22 em 2011. Que o sorriso dessa criança esteja presente no seu Santo Natal, e por todos os dias do novo ano que está chegando.
Feliz Natal! Feliz 2011!
Abraços, Alfeo.

Estação 20 - CP - Caminho dos Pinhais

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O brasão que pertenceu ao um dos fundadores da cidade de São Carlos - SP,

e que, após a sua autorização, passou a ser a logomarca histórica da Companhia Paulista de Estradas de Ferro - CP,

voltará a ter vida no Fotos 01,02 e 03



Na noite de 09 de novembro de 2010, no auditório Bento Prado Jr. do Paço Municipal de São Carlos, o Prefeito Oswaldo Barba Duarte Filho, o vice prefeito Emerson Leal, a presidente da Fundação Pró-Memória Ana Lúcia Cerávolo, e o coordenador da Regional de Araraquara, da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária - ABPF Geraldo Godoy, apresentaram o projeto "CAMINHO DOS PINHAIS", para a implantação do trem turístico cultural a vapor em São Carlos.
Foto 04
Um sonho de 40 anos que começa a se tornar realidade!




Os objetivos do projeto contemplam a preservação do Patrimônio Público e a História Ferroviária de São Carlos e da CP - Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foto 05







A locomotiva Baldwin que se encontra na Praça Brasil na Vila Nery, vai ser levada para as Indústrias Votorantim para reforma e restauro. A previsão para a execução dos trabalhos é de aproximadamente seis meses. Foto 06




Para receber a locomotiva restaurada, o trecho de linha métrica que existia no vão central da plataforma que servia o ramal para Água Vermelha e Santa Eudóxia, será reimplantado.
Foto 07




E a Estação Ferroviária de São Carlos, uma das poucas preservadas, terá mais um detalhe da sua originalidade. - Foto 08







O projeto é ambicioso, prevê a ligação da Estação Ferroviária até a Estação Conde do Pinhal que se localiza nos fundos e à esquerda do Posto Castelo, num total de 11 Km. Fotos 09,10 e 11








A Estação Conde do Pinhal foi restaurada há alguns anos pela família Botelho, proprietários do Posto Castelo, mas durou pouco, foi depredada. Para a chegada da Baldwin e dos carros de passageiros, ela terá que passar por nova recuperação; mas não faltarão parceiros. Foto 12




Neste video produzido pela Fundação Pró-Memória de São Carlos, é possível ver o trajeto que o trem a vapor estará fazendo quando os 11 Km de trilhos estiverem implantados. Ligue o som e vamos juntos:
Créditos: no final do vídeo

Como é um projeto de alto custo, inicialmente será implantado entre a Estação Cultura e a Praça Itália, com 1200m de trilhos de bitola métrica. Naquela praça será construída a Estação Praça Itália, com plataforma para desembarque e embarque de passageiros. Fotos 13 e 14








Os trilhos serão reimplantados no leito original existente que servia o ramal de bitola métrica da CP, à esquerda da via da América Latina Logística - ALL. Foto 15








Seguirá limitando os fundos da antiga Companhia e Fiação de Tecidos São Carlos, a "Tecidão". Foto 16








Continuando, passará no pontilhão sobre a rua
Itália, tradicional Travessa 8 da Vila Prado. Naquele trecho ferroviário ainda é possível encontrar uma seção da linha de bitola métrica daquele antigo ramal. Estes trilhos são detalhes valiosos e vão contribuir muito na reimplantação da via. Foto 17



Após o pontilhão da Travessa 8, inicia-se o limite de divisa com a antiga Cooperativa de Lacticínios São Carlos. Nos fundos e sobre o terreno onde era o leito do ramal da CP, foi construído um escritório. Hoje, toda a área pertence ao Savegnago Supermercados, e lá será mais uma loja da rede. Entendimentos entre a Prefeitura de São Carlos e a diretoria daquela Empresa estão em andamentos, e já é certo que o Savegnago se tornou o primeiro parceiro do "Caminho dos Pinhais". O escritório será demolido para permitir a reutilização do antigo leito ferroviário. Foto 18


Para compor o trem, os carros de passageiros em madeira, poderão ser fabricados ou reformados, mas outros carros que estão em desuso em vários páitos ferroviários, também estão sendo analisados. Foto 19






Assim que o "Caminho dos Pinhais" for implantado, um trem igual ao que está à direita na foto, voltará para o mesmo local da Estação Ferroviária de São Carlos. Os ferroviários da época e todos os que viveram a era do vapor em São Carlos vão se emocionar e reviver suas histórias. Foto 20


Quando a segunda fase do projeto for implantado, voltaremos a ver essa imagem, um trem a vapor passando sobre o pontilhão da Praça Itália. Foto 21







Mas, outras imagens serão revividas como estas da antiga sub-estação da CP. Ela não está mais como mostrada no video, muita coisa mudou! Foi invadida e depredada, mas a Vila Ferroviária e a Estação Hipódromo ainda estão lá:

Créditos: No título do vídeo

Caminho dos Pinhais, um sonho de 40 anos se tornando realidade...

Créditos:
Fotos:
01 - Logotipo CP - José Alfeo Röhm
02 - Conde do Pinhal - Google Imagens
03, 04 ,05, 06, 09, 11, 12 e 19 - Fundação Pró-Memória de São Carlos
10 - Posto Castelo - Google Imagem
07, 08, 13, 14, 15, 16, 17 e 18 -Geraldo Godoy - ABPF
20 e 21 - Foto Arte -José "Alemão" João, anos 50

Colaboraram:
Ana Lúcia Cerávolo - Fundação Pró-Memória de São Carlos
Daniel Gobato Röhm
Geraldo Godoy - ABPF
José Luis Braz Leme
Maria Nazareth Gobato Röhm
Renato Locilento- Fundação Pró-Memória de São Carlos


Obrigado por sua agradável companhia, vamos nos encontrar, certamente, na Estação 21.
Abraços, Alfeo.

Estação 19 - Os Bondes de São Carlos - SP

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Quando em 27 de dezembro de 1914, a



inaugurou as linhas de bondes de São Carlos, este bonde, provavelmente, já havia contribuído muito para a implantação da ferrovia urbana. É muito pouco conhecido, era um vagão de manutenção das vias, e de socorro nos acidentes. Nos anos 50, a molecada o apelidou de "Bonde de Ferro", talvez por causa da sua cor cinza e do seu desenho agressivo e robusto. Ele aparecia muito pouco, mas onde estava era sinônimo de problema, era seção de trilho que tinha que ser trocada, dormentes que tinham que ser substituídos, desvios desalinhados, parafusos dos trilhos rompidos ou frouxos, descarrilamentos, abalroamentos, fio trolley rompido ou desgastado. Tudo era cuidado pela Equipe de Manutenção da Companhia Paulista de Eletricidade que se utilizava desse vagão de apoio, para manter a ferrovia urbana em funcionamento e garantir a pontualidade dos bondes. Foto 01: Foto Arte -José "Alemão" João - Foto o2: Logo CPE - Allen Morrison - Antonio Gorni

Este, por sair da garagem, uma ou duas vezes por semana, nos dias de abate do Matadouro Municipal, também se tornou pouco conhecido. Transportava carne fresca do abatedouro para os açougues do Mercado Municipal e também para aqueles que ficavam em outros locais da cidade, mas com a frente para uma das linhas dos bondes.
Foto 03: Filemon Pérez - Almanach - Álbum de São Carlos, 1916 - 1917


Suas portas laterais eram de correr e para facilitar o acesso dos homens que faziam o transporte das peças bovinas, havia uma escada que era colocada entre o piso da rua e o piso do bonde. Com o passar dos anos, as cores foram mantidas e o vagão nas suas duas cabeceiras ganhou o letreiro "CARNE VERDE". Diferente de outras cidades, que a carne fresca ia para os açougues em carroças, carros de boi, carroções, e caminhões com carrocerias abertas, em São Carlos, a carne ia para os açougues de um jeito "chic", de bonde. Foto 04: Raymond DeGroote

A linha que servia o "Bonde da Carne", era uma extensão da linha "2", Santa Casa - Gynásio. Tinha seu início naquele hospital, adentrava na zona rural pela rua Paulino Botelho de Abreu Sampaio até a Estrada da Boiada, "Picadão de Cuibá", que hoje é a rua Miguel Petroni, e após atravessá-la, chegava ao Matadouro Municipal.
Foto 05: Santa Casa em 1930 - Revista Raça de São Carlos - 1933 - Acervo Antonio Carlos Lopes da Silva

A distância percorrida pelo "Bonde da Carne" da Santa Casa até o Matadouro Municipal era de aproximadamente um quilometro, destaque em azul no mapa. Foto 06: Google Mapas.

O prédio do Matadouro nos anos 50, já era precário e anti-higiênico; acabou sendo desativado quando toda a área foi doada, no início daquela década, à Universidade de São Paulo - USP, para a construção da Escola de Engenharia de São Carlos - EESC. Foto 07: Matadouro Municipal de São Carlos - Anos 60 - Foto Arte -José "Alemão" João


No detalhe, é possível ver os trilhos do "Bonde da Carne" nos fundos do Matadouro. Esta foto provavelmente é a única que mostra aquele trecho da linha. Foto 08: Matadouro Municipal de São Carlos -Linha do "Bonde da Carne" - Anos 50 - Foto Arte -José "Alemão" João. Do livro "TOCANDO O BONDE EM SÃO CARLOS-SP" de Marco Antonio Leite Brandão


O prédio do Matadouro teve um destino nobre,
de abatedouro àFoi todo restaurado como prédio Histórico e hoje destina-se às atividades acadêmicas.
Fotos 09, 10 e 11: José Alfeo Röhm

Mas vamos continuar com os bondes... Nos anos 30, a CPE querendo oferecer mais conforto e segurança para os passageiros, colocou em circulação o "Bonde Camarão", "camarão" porque o carro era todo fechado e vermelho, e o povo logo o identificou com o camarão.
Foto 12: Bonde Camarão - Anos 30 - Foto Arte -José "Alemão" João


Seu interior, era confortável e até com algum luxo, mas teve vida curta e foi rejeitado. O povo dava preferência para os carros abertos e o "Camarão" circulava sem passageiros.
Depois de várias tentativas frustradas, sumiu de circulação e tornou-se novamente um carro aberto. Pelo seu pouco tempo de vida, também ficou pouco conhecido.
Foto 13: Foto Arte - José "Alemão" João







Depois de apresentado os menos conhecidos, vamos agora aos mais conhecidos:


As linhas dos bondes de São Carlos eram três;
a "1" que ligava o Cemitério Nossa Senhora do Carmo à Estação Ferroviária da Companhia Paulista de Estradas de Ferro - CPEF. A "2" fazia a conecção entre a Santa Casa de Misericórdia e o Gynásio Diocesano e a "3" que transportava os passageiros da Praça ARCESP na Vila Nery, até a Estação Ferroviária. As três linhas se aproximavam no centro da cidade, perrmitindo baldeações e encontravam-se na Estação Ferroviária, nos horários das chegadas e partidas dos trens da passageiros. Atendiam também os horários de entrada e saída dos funcionários nas fábricas.
Foto 14: Mapa de Allen Morrison, com correções de Valentim Gueller Neto

As linhas "1" e "3" tinham seus inícios na Estação Ferroviária e a "2", cruzava com as mesmas na ida e na volta naquele local. Foto 15: Estação Ferroviária de São Carlos - "Pegando o Bonde Andando" Anos 50 - Acervo João Neves Carneiro







Ponto final do bonde "1" no Cemitério Nossa Senhora do Carmo. Este bonde além de servir aos operários e viajantes com destino às fábricas e Estação Ferroviária, servia também para o acompanhamento de translados funerais, o corpo do falecido ia no carro funeral, e atrás, no bonde, os seus parentes e amigos. Era possível fretar um bonde junto a CPE para esse serviço. Foto 16: Jornal "O Correio de São Carlos" de 05 de novembro de 1958. Do livro "TOCANDO O BONDE EM SÃO CARLOS-SP" de Marco Antonio Leite Brandão

Quando foi implantada a linha "2", Santa Casa - Gynásio, no início da Av. Dr. Carlos Botelho, os trilhos faziam uma curva à esquerda, seguiam pela Rua Paulino Botelho de Abreu Sampaio e terminavam defronte daquele hospital. isso se manteve até o início dos anos 50, quando aquele trecho de trilhos foi retirado. Foto 17: Acervo do autor - Foto inédita, adicionada em 13 de novembro de 2011.

O bonde "2" no ponto final da Santa Casa, início da Av. Dr. Carlos Botelho. Nesta foto é possível observar dois detalhes raros: O primeiro é do cobrador acabando de mudar o pantógrafo do carro de passageiros para a face posterior do mesmo. O segundo é a curva dos trilhos que segue à direita, início da linha do "Bonde da Carne". A curva dos trilhos à esquerda que permitia que o bonde fosse até defronte daquele hospital, já não está mais presente. Esta foto foi lembrada pelo Amigo Antonio Carlos Lopes da Silva, e inserida em 02 de novembro de 2010, como complemento desta Estação. Foto 17.1: Ponto final da Santa Casa - 1958 - William Janssen

Neste local, início da rua General Osório, o bonde
"2" parava antes da passagem de nível dos trilhos da CPEF, e como os fios trolley que alimentavam as locomotivas ficavam na transversal à linha do bonde, o mesmo não podia ultrapassar as vias ferroviárias com o pantógrafo erguido. Aquele coletor de energia, em forma de lira que ficava sobre o carro era abaixado pelo cobrador e amarrado por uma corda ao parachoque do carro. A seguir, o cobrador pegava um bastão com uma extensão com capa isolada do fio trolley, que ficava enrolada e guardada à esquerda da passagem de nível, ou da porteira da Paulista, e a conectava através de um gancho energizado ao pantógrafo. Após essa operação, o bonde fazia a travessia dos trilhos da Companhia Paulista. Após a passagem, a extensão era retirada e o pantógrafo levantado, passando a receber novamente a energia da rede elétrica. Foto 18: Porteira da Companhia Paulista de Estrada de Ferro em São Carlos-SP- 1958 - William Janssen

E finalmente, o bonde "2" continuava até o ponto final defronte ao Gynásio Diocesano.
Foto 19: Gynásio Diocesano - 1957 - Acervo Colégio Diocesano La Salle - São Carlos

Essa operação de energizar o bonde através de uma extensão do fio trolley se dava na ida por ser subida. O detalhe da volta foi lembrado pelo Doricci: "Na volta, o bonde parava mais ou menos a uns 20 metros antes dos trilhos da CP, o motorneiro dava a partida, embalava o bonde, e o cobrador abaixava o pantógrafo. Por ser descida, o bonde fazia a travessia no embalo, ou na "banguela". Após a passagem o pantógrafo era erguido e conectado ao fio trolley, e o bonde continuava seu trajeto." Estas duas operações para a passagem do bonde pelos trilhos da ferrovia talvez foram soluções únicas no Brasil.

O bonde "3" tinha seu ponto final na Vila Nery junto à Praça Associação dos Representantes Comerciais do Estado de São Paulo, Praça ARCESP. Acabou ficando mais conhecida como "Balão do Bonde". Nesta praça, o bonde fazia o contorno da mesma e voltava para a Estação Ferroviária sem virar os bancos, mudar o motorneiro para a outra "frente" do carro e inverter o sentido do pantógrafo. Este ponto final era o único que permitia esse tipo de retorno, nos demais o bonde tinha que trocar de "frente". Foto 20: Praça ARCESP - Balão do Bonde da Vila Nery - 1958 - William Janssen

No centro da cidade, na Praça Coronel Salles ou próximo dela, as três linhas se aproximavam e quando havia o cruzamento de dois bondes, o trânsito já ficava alterado.
Foto 21: Praça Coronel Salles - Bonde na Avenida São Carlos - Anos 50 - Acervo Antonio Carlos Lopes da Silva


Os bondes também eram festeiros, e nos carnavais o corso era acompanhado pelo "Bonde da Alegria", e o povo nele se divertia. Mas festas e farras mesmo faziam os moleques, que colocavam pedaços de sabão ou bananas maduras nos trilhos das subidas dos bondes. Patinavam, patinavam, e não subiam. As subidas preferidas da molecada eram a da rua São Joaquim, próximo da Piscina Municipal e a da rua Bento Carlos, após a rua Episcopal. O motorneiro dava ré no bonde, depois voltava à pé junto com o cobrador e limpavam os trilhos. Quando iam de volta para colocar o bonde em movimento, os moleques rapidamente faziam tudo novamente...Para fazer cerol para as pipas, a meninada colocava os pedaços de vidro sobre os trilhos, e as rodas do bonde deixavam os mesmos em pó. Foto 22: "Bonde da Alegria" - Carnaval de 1961 - Jornal 'A TARDE" de 08 de março de 1962 - Foto Thomaz Ceneviva. Do livro "TOCANDO O BONDE EM SÃO CARLOS-SP" de Marco Antonio Leite Brandão

Os bondes das três linhas, passavam na frente ou ao lado de sete igrejas: Capela de Nossa Senhora do Carmo, Capela da Santa Casa, Capela do Seminário, Igreja de Dom Bosco, Igreja de São Sebastião, Catedral e Igreja de São Benedito.
Como os bondes eram festeiros, as noivas iam para os casamentos acompanhadas dos pais, padrinhos e convidados de bonde, e da mesma forma aconteciam os batizados. Foto 23: Fotograma Oeste Filmes - Antiga Matriz de São Carlos - 1927, Acervo Foto Arte - José "Alemão" João. Do livro "TOCANDO O BONDE EM SÃO CARLOS-SP" de Marco Antonio Leite Brandão

A energia elétrica, em corrente contínua para a operação dos bondes na cidade era gerada pela Usina Hidrelétrica Monjolinho , que entrou em operação em 1893, e é considerada a mais antiga do país. Por essa razão, a Companhia Paulista de Força e Luz - CPFL criou nela um museu, onde estão em exposição objetos, fotos e documentos que tratam da História da Energia. Está tendo destino nobre, continua ativa como geradora de eletricidade e Museu da Energia. Foto 24: Mais Interior - CPFL
Os bondes de São Carlos eram belgas, e iniciavam as jornadas de trabalho bem cedo, por volta das 6 horas já estavam chegando nos pontos finais para o início da primeira viagem.
No final de cada dia, por volta da 23 horas, eram recolhidos na garagem, "Estação dos Bondes", era um prédio grande que ficava com a frente para a rua Campos Salles, entre as Ruas Marechal Deodoro e Padre Teixeira, na Vila Nery. No dia 15 de junho de 1962, à noite, os bondes para lá voltaram, e no dia 16 não sairam.
A Companhia Paulista de Eletricidade - CPE havia encerrado os serviços de bondes em São Carlos após cumprir os cinquenta anos de contrato. O prédio que abrigava os bondes não teve o mesmo destino nobre do Matadouro Municipal, não se tornou o Museu do Bonde, nem um Centro Cultural ou Empresarial, com a preservação do prédio Histórico. Foi leiloado, arrematado, demolido e hoje naquele local existem duas torres de apartamentos. Foto 25: Filemon Pérez - Almanach de são Carlos 1916 - 1917

Mas agora ligue o som, e que tal um passeio nos bondes de São Carlos?



Cenas dos Bondes de São Carlos - SP na EPTV-São Carlos - Youtube

O QUE SOBROU ?

Além das saudades, muitas lembranças, artigos, livros, fotos e filmes, o que sobrou foi graças ao Sr. Nicola Gonçalves,
o Seo Nicola do Bonde.
Foto 26: Acervo Nicola Gonçalves - junho - 2008.
Fui visitá-lo em 28 de outubro de 2010, antes do término desta Estação para tirar algumas dúvidas sobre os dois bondes remanescentes de São Carlos. Abaixo segue um breve resumo da conversa que tivemos:
Foi ele que antes dos desmontes dos bondes, negociou com a diretoria da CPE a compra de um bonde, o "7". O preço ficou para ser acertado depois de trinta dias, e após esse tempo, o Dr. Djalma Kell, diretor daquela Empresa o chamou e lhe deu o preço do único bonde que ainda estava inteiro. Seo Nicola me contou que foi um valor muito alto, como se fosse hoje ,R$ 12.000,00, e que ele não tinha condições de fazer a compra. Comunicou a decisão ao diretor e disse a ele que sabia quem podia comprar aquele carro. Manteve contatos com os Srs. Dário Rodrigues e Totó Fiorentino que eram rotarianos e através deles, o
Rotary Club -de São Carlos, comprou o bonde e o doou à Prefeitura de São Carlos
Foto 27: Google Imagens.

O bonde "7" ficou guardado nas oficinas da CPE por um ano, e em 1963, a Prefeitura Municipal o expos no jardim da Piscina Municipal. E lá ficou por 44 anos. Durante todos esses anos Seo Nicola cuidou desse bonde como se fosse seu, recuperava a pintura, trocava as lâmpadas queimadas, substituia as cortinas rasgadas.... Chegou quase a ser preso, por cuidar do bonde. Foi confundido como agressor do bonde, mas tudo foi esclarecido.
Foto 28: Allen Morrison

No início de 2008, foi recolhido nas oficinas da
Prefeitua e desta vez o Seo Nicola foi contratado para mais uma vez restaurar o bonde "7". No final de 2008, o bonde foi novamente para o espaço público, se tornou cartão postal, e desta vez na Praça ARCESP "Balão do Bonde" da Vila Nery.
Foto 29: José Alfeo Röhm - 29 de dezembro de 2008.





Para o Seo Nicola não ficar sem um bonde, o Dr. Djalma vendeu para ele um carro desmontado, o "3". Nos valores de hoje, seria uns R$ 200,00. Ele o recuperou, e em 1970 o vendeu para o proprietário de um pesqueiro na região, ficou lá sem nenhum trato até 2006. Foto 30: Ayrton Camargo da Silva



E em setembro de 2006, foi comprado pelo Grupo Damha. Foi reformado e restaurado, e em setembro de 2009, passou a compor o espaço "Estação Damha" daquele parque. Hoje, enche os olhos pela beleza e brilho! E assim, São Carlos passou a ter dois bondes preservados, dois Monumentos Históricos. Foto 31: José Alfeo Röhm - 29 de setembro de 2009.








Mas, Seo Nicola queria ter um bonde e comprou outro da CPE, o "11". Já estava sem cobertura, ficou guardado por bom tempo num terreno ao lado da "Serraria do Bonde", e depois na rua, defronte a mesma. Como já estava muito degradado, acabou sendo desmontado, e a madeira reaproveitada. E, do bonde mesmo, ficou a serraria do Seo Nicola.
Foto 32: José Alfeo Röhm - 28 de outubro de 2010

Finalizando a papo com Seo Nicola, este simpático Marceneiro me contou que em São Carlos havia oito bondes motorizados de passageiros, "1", "3", "5", "7", "9", "11", "13" e "15", e mais dois "Cara Dura"; eram os carros de passageiros sem motor. Principalmente nos Dias de Finados, os "Cara Dura" eram engatados nos bondes motorizados para auxiliar no transporte do povo na ida e na volta do Cemitério Nossa Senhora do Carmo.

O Antonio Carlos Lopes da Silva lembrou-se de outro detalhe muito importante da História dos bondes de São Carlos : " Os desconhecidos bondes puxados por burros do Coronel Leopoldo Prado em 1895. " Asunto para uma próxima Estação.

..., mas, falar dos bondes de São Carlos é uma História que não tem fim, cada um de nós que convivemos com eles, temos sempre um capítulo a mais para contar...

Créditos:
Fotos: Em cada foto
Video: EPTV-São Carlos - Youtube
Colaboraram:Adolpho Nocilli Neto
Antonio Carlos Lopes da Silva
Daniel Gobato RöhmMaria Nazareth Gobato Röhm
Meire MilanettoNicola GonçalvesSergio Paulo Doricci
Valentim Gueller Neto
Pesquisa bibliográfica:
Almanach Álbum de São Carlos - 1916 - 1917 - Typographia Artistica
O Bonde no "Balão do Bonde" - Marco Antonio Leite Brandão - 2010
São Carlos na Esteira do Tempo - Julio Bruno e Ary Pinto das Neves - 1984Tocando o Bonde em São Carlos-SP - Marco Antonio Leite Brandão - 2009Mais Interior
Novo Milênio
The Tramways of São Carlos
Obrigado pela sua agradável companhia. Nos encontraremos novamente na Estação 20.
Abraços, Alfeo.